Minha amiga, meu amigo…
Antes de começarmos essa conversa, eu preciso deixar três coisas muito claras.
Primeiro: eu sou fã da Disney e sou fã da Fórmula 1. Minha lembrança mais antiga como fã de Fórmula 1 vem de quando eu tinha apenas quatro anos de idade. Eu usava um macacão do Emerson Fittipaldi e assistia ao Mundo de Cores da Disney nas tardes de sábado. Isso foi em 1972.
Segundo: sim… eu acredito em fadas, acredito em Papai Noel… e acredito no Bigfoot também. Esse comentário é apenas uma forma bem-humorada de lembrar que às vezes vale a pena explorar ideias que parecem um pouco malucas à primeira vista.
E terceiro — talvez o ponto mais importante de todos — este aqui não é um artigo de notícia.
Não existe nenhuma negociação acontecendo. Não existe nenhum rumor concreto no mercado. E para deixar absolutamente claro desde o início: a Fórmula 1 não está à venda neste momento.
A categoria pertence ao grupo Liberty Media desde 2017 e vive, inclusive, um período muito interessante de crescimento global.
Então por que levantar essa hipótese?
Porque às vezes imaginar cenários estratégicos ajuda a entender melhor como grandes empresas pensam e evoluem. E quando começamos a olhar para o que está acontecendo no mundo da mídia, do entretenimento e dos esportes, surge uma pergunta curiosa.
Uma pergunta provocativa.
E se a Disney comprasse a Fórmula 1?
Não estou dizendo que isso vai acontecer. Mas existe uma lógica interessante por trás dessa ideia — e explorá-la ajuda a entender tanto o momento atual da Disney quanto o papel que os grandes esportes globais podem ter no futuro do entretenimento.
História da Disney com esportes
Embora muita gente associe a Disney principalmente a filmes e parques temáticos, a relação da empresa com o mundo dos esportes não é algo recente.
Nos anos 1990, a companhia chegou a se envolver diretamente com franquias esportivas profissionais. O caso mais conhecido foi o dos Anaheim Ducks, equipe da NHL criada a partir do sucesso do filme The Mighty Ducks. A Disney também teve participação no Los Angeles Angels, da Major League Baseball.
Essa experiência durou alguns anos, mas acabou levando a empresa a uma conclusão importante: ser dona de equipes esportivas não era necessariamente a melhor forma de participar do universo dos esportes.
O verdadeiro poder estava em outro lugar.
Esse ponto ficou claro em 1996, quando a Disney adquiriu a Capital Cities/ABC por cerca de 19 bilhões de dólares. Com essa operação veio um ativo que se tornaria central para o relacionamento da empresa com o esporte: a ESPN.
A partir desse momento, a Disney passou a ter uma posição privilegiada na distribuição de conteúdo esportivo. Em vez de administrar times específicos, ela passou a controlar uma das maiores plataformas de mídia esportiva do mundo.
Ao longo das décadas seguintes, a ESPN se consolidou como um dos pilares da presença da Disney no universo esportivo. Grandes ligas, campeonatos universitários e eventos internacionais passaram a fazer parte do portfólio da rede.
Com o tempo, a estratégia da empresa ficou ainda mais clara: em vez de competir dentro do esporte, a Disney preferiu ser uma das principais portas de entrada para o público que consome esporte.
Esse posicionamento se tornaria ainda mais importante no momento em que a indústria de mídia começou a mudar profundamente.
Importância dos esportes para a estratégia atual da Disney como empresa
Nos últimos quinze anos, o mercado de mídia viveu uma revolução.
O crescimento das plataformas de streaming mudou completamente a forma como o público consome conteúdo. Durante um período conhecido como “guerra do streaming”, empresas passaram a investir bilhões de dólares para produzir filmes e séries originais.
Mas com o tempo ficou claro que produzir grandes volumes de conteúdo não era suficiente.
Plataformas começaram a enfrentar um problema chamado churn — quando usuários assinam um serviço apenas temporariamente e cancelam depois.
Foi nesse cenário que os esportes passaram a ganhar ainda mais importância.
Eventos esportivos são um dos poucos tipos de conteúdo que continuam sendo consumidos ao vivo. Eles criam hábitos semanais de audiência e mantêm o público engajado por longos períodos.
Hoje a Disney investe cerca de 24 bilhões de dólares por ano em conteúdo, e uma parte significativa desse valor está relacionada a direitos esportivos.

Um exemplo interessante dessa nova fase foi o acordo recente entre a Disney e a NFL, no qual a liga passou a ter participação na ESPN. Em troca, ativos importantes da NFL foram integrados ao ecossistema da rede.
Esse tipo de parceria mostra como o esporte se tornou um pilar estratégico dentro da estrutura da Disney.
E é justamente nesse contexto que a Fórmula 1 entra na conversa.
A F1 como um dos maiores produtos esportivos do mundo
Entre todos os esportes globais, poucos têm a escala internacional da Fórmula 1.
O campeonato percorre diversos continentes ao longo de uma temporada, com corridas na Europa, Ásia, América e Oriente Médio. Essa presença global cria uma plataforma esportiva que conversa com públicos muito diferentes ao redor do mundo.
Nos últimos anos, a categoria passou por uma transformação importante após a aquisição pela Liberty Media em 2017.
A empresa modernizou a presença digital da Fórmula 1, ampliou sua presença nas redes sociais e expandiu o calendário para novos mercados. O resultado foi um crescimento significativo da audiência global.
Hoje a Fórmula 1 gera cerca de 3,9 bilhões de dólares em receitas anuais e possui lucro operacional próximo de 946 milhões de dólares. Dependendo da avaliação utilizada, o valor da categoria pode variar entre 19 e 28 bilhões de dólares.
Além disso, a Fórmula 1 desenvolveu um ecossistema comercial que vai muito além das corridas. Direitos de transmissão, patrocínios globais, hospitalidade premium e plataformas digitais fazem parte desse modelo de negócios.
Essa combinação transforma a Fórmula 1 em algo raro: um esporte com alcance verdadeiramente global.
Por que faz sentido para a Disney comprar a F1?
A ideia de a Disney comprar a Fórmula 1 pode parecer improvável, mas ela começa a ficar interessante quando pensamos na forma como a empresa constrói seus ecossistemas de entretenimento.
A Disney raramente se limita a produzir conteúdo. Ela transforma propriedades intelectuais em universos completos que incluem mídia, experiências, produtos e eventos.
Nesse contexto, um produto esportivo global como a Fórmula 1 poderia ter um potencial enorme dentro desse tipo de estrutura.
Existe inclusive um detalhe curioso que muitas pessoas não percebem: a Disney já está presente no universo da Fórmula 1.
Em 2026 foi anunciada uma colaboração chamada Fuel the Magic, que conecta personagens da Disney ao mundo da Fórmula 1 em produtos licenciados, experiências e ativações para fãs. A iniciativa mostra que a empresa já enxerga a categoria como uma plataforma interessante para conectar suas marcas a um público global.

Esse tipo de parceria sugere que a Disney percebe algo importante: a Fórmula 1 não é apenas um campeonato esportivo. Ela é uma plataforma cultural e comercial capaz de gerar experiências em diversos formatos.
E isso se encaixa perfeitamente no modelo da Disney.
Fuel The Magic: O piloto italiano Kimi Antonelli, assim que saiu do carro, em sua primeira vitória na F1, no Grande Prêmio da China, com o logo (Mickey) ao fundo…
Sinergias entre a Disney e a F1
Se existe uma coisa que a Disney sabe fazer melhor do que qualquer outra empresa no mundo é transformar entretenimento em experiência.
Parques temáticos, produtos licenciados, espetáculos e cruzeiros são exemplos de como a empresa expande suas marcas para além do conteúdo.
Agora imagine essa lógica aplicada à Fórmula 1.
Cada corrida já é um grande evento internacional. Mas dentro do universo Disney, esses finais de semana poderiam se transformar em verdadeiros festivais de entretenimento.
A divisão Imagineering poderia desenvolver experiências imersivas ligadas ao universo da velocidade e da engenharia. Simuladores avançados, exposições interativas e atrações temporárias poderiam acompanhar o calendário da categoria ao redor do mundo.
A própria estrutura dos Grandes Prêmios poderia ganhar novos elementos narrativos e experiências familiares que aproximassem o esporte de públicos que normalmente não acompanham corridas.
E existe uma ideia particularmente divertida de imaginar.
Se existe um lugar no mundo onde um Grande Prêmio poderia se transformar em um evento único, esse lugar provavelmente seria Walt Disney World, em Orlando.
Um circuito temporário nas proximidades do resort, combinado com experiências espalhadas pelos parques e hotéis, poderia transformar um final de semana de corrida em algo completamente diferente de qualquer outro evento esportivo.
Seria esporte, turismo e entretenimento ao mesmo tempo.
Quem poderia comprar a F1 no futuro?
Caso a Fórmula 1 algum dia fosse colocada à venda, não faltariam interessados.
Empresas de tecnologia como Apple e Amazon possuem capacidade financeira para operações desse tamanho. Fundos soberanos do Oriente Médio também demonstraram interesse crescente em ativos esportivos globais.
Conglomerados de mídia, incluindo Comcast ou Disney, também poderiam ver valor estratégico em um produto esportivo com alcance internacional.
E não seria impossível imaginar consórcios envolvendo diferentes investidores.
Propriedades esportivas globais são raras e extremamente valiosas. Quando aparecem no mercado, costumam atrair atenção imediata de vários setores da economia.
Desafios que complicariam essa compra pela Disney
Apesar de toda a curiosidade que essa hipótese desperta, uma aquisição desse tipo enfrentaria desafios importantes.
O primeiro é financeiro. A Fórmula 1 é um ativo extremamente valioso e uma operação desse porte poderia envolver dezenas de bilhões de dólares.
Também existem questões regulatórias complexas. A governança do esporte envolve contratos com equipes, promotores e a FIA, o que tornaria qualquer mudança de controle um processo delicado.
Além disso, a Disney teria que avaliar se uma aquisição dessa magnitude faria sentido dentro de suas prioridades estratégicas.
Nem toda ideia interessante se transforma em realidade.
Conclusão
No final das contas, imaginar a Disney comprando a Fórmula 1 provavelmente continuará sendo apenas um exercício de imaginação.
A categoria não está à venda e não existe nenhum sinal concreto de que algo assim possa acontecer.
Mas pensar nesse cenário ajuda a entender melhor duas coisas.
A primeira é o papel crescente dos esportes dentro do futuro do entretenimento.
A segunda é a capacidade da Disney de transformar propriedades criativas em universos completos de experiências.
Talvez esses dois mundos nunca se encontrem dessa forma.
Mas imaginar o que poderia acontecer se eles se encontrassem… é um exercício fascinante.
Porque às vezes as ideias mais curiosas começam exatamente assim.
Com uma pergunta simples.


